O número que surpreendeu
Os dados do Boletim Estatístico do INPI e do WIPO IP Statistics Data Center revelam um crescimento contínuo do mercado brasileiro de marcas: cerca de 188 mil novos pedidos depositados em 2024 — o maior volume da série histórica recente. Não é uma estimativa interna: são os números que o próprio INPI e a WIPO consolidam e publicam.
Para ter uma noção da trajetória, pense assim: em 2015 — primeiro ano desta série — o Brasil recebeu 115.362 pedidos. Em 2024, recebeu 63% a mais. No intervalo de dez anos, o mercado de marcas no país passou por uma transformação estrutural, silenciosa mas consistente.
O crescimento mais expressivo veio em 2021: os depósitos saltaram +20,3% em relação a 2020 (INPI Boletim Estatístico), refletindo a recuperação pós-pandemia e a explosão dos negócios digitais. De lá para cá, cada ano superou o anterior — 2022: 178.452 | 2023: 183.541 | 2024: ~188.000 —, consolidando o Brasil no 6º lugar do ranking mundial de depósitos de marca (WIPO, 2023).
O que alimenta esse crescimento contínuo? A resposta não é uma única causa, mas a convergência de cinco forças que vinham se formando há anos. E entender cada uma delas é entender por que o cenário para quem ainda não registrou sua marca ficou muito mais competitivo.
O contexto histórico
Série histórica — pedidos de marca no INPI
Fonte: INPI (Boletim Estatístico) / WIPO IP Statistics. Ponto laranja = 2024 (recorde). Ponto vermelho = 2020 (COVID).
A trajetória dos novos depósitos de marca no Brasil conta uma história em três atos. O primeiro, entre 2015 e 2019, foi de crescimento acelerado: saímos de 115 mil pedidos para 152 mil — um avanço de +32% em quatro anos (INPI Boletim Estatístico). Esse período coincide com a explosão do e-commerce, a popularização das redes sociais como canal de vendas e o boom das startups no país.
O segundo ato, em 2020, trouxe turbulência. A pandemia derrubou os depósitos para 137.246 — queda de -9,8% em relação a 2019. Negócios fechando, incerteza econômica, prioridades redefinidas. O registro de marca passou para segundo plano.
O terceiro ato começou em 2021, com a retomada. Os pedidos saltaram +20,3% para 165.089 — acima do nível pré-pandemia — e o Brasil entrou em uma nova fase de consolidação do mercado de marcas. Em 2022: 178.452 | em 2023: 183.541 (novo recorde) | em 2024: ~188.000 (estimativa, novo pico da série).
O que o gráfico mostra com clareza é que, tirando o choque do COVID, a curva é de crescimento consistente. Não estamos diante de uma bolha — estamos diante de uma mudança estrutural no comportamento dos empreendedores brasileiros em relação à propriedade intelectual.
Os 5 fatores por trás do recorde
Nenhum número cresce 15,8% em um ano por acidente. Cinco forças se combinaram para empurrar os pedidos de marca ao nível mais alto da história.
1. A digitalização dos negócios acelerou a consciência de marca
Quando uma empresa vendia apenas na loja física do bairro, o nome podia ser local e informal. Com a migração para o digital — Instagram, TikTok, Google, marketplaces — o nome passou a ter alcance nacional desde o primeiro dia. E alcance nacional significa exposição a conflitos de marca em escala que as gerações anteriores de empreendedores nunca enfrentaram. Quem monta uma loja no Instagram hoje sabe, mesmo que intuitivamente, que está competindo com marcas de todo o Brasil pelo mesmo espaço de atenção. Isso criou um senso de urgência que não existia dez anos atrás.
2. O boom dos criadores de conteúdo e dos infoprodutos
A economia dos criadores de conteúdo explodiu nos últimos anos. Cursos online, mentorias, comunidades pagas, produtos digitais — cada lançamento carrega um nome, uma marca, uma identidade. Plataformas como Hotmart e Kiwify democratizaram a criação e venda de infoprodutos, e cada novo criador com uma audiência fiel tem um ativo de marca que precisa proteger. Esse segmento praticamente não existia como força relevante em 2013 e hoje responde por uma fatia crescente dos pedidos no INPI.
3. O crescimento do MEI e dos pequenos negócios
Com 67% dos CNPJs ativos sendo MEIs (Receita Federal, 2024) e mais de 7 milhões de MEIs vendendo online (Sebrae, 2024), o Brasil tem uma legião de novos empreendedores que, ao profissionalizar o negócio, passam a buscar proteção para o que construíram. O MEI que antes operava sem formalização agora tem CNPJ, conta bancária e, cada vez mais, marca registrada. É uma digitalização da formalização que alimenta diretamente a fila do INPI.
4. Os marketplaces passaram a exigir marca registrada
Amazon Brand Registry, Mercado Livre, Shopee — os grandes marketplaces criaram programas de proteção que beneficiam diretamente quem tem marca registrada. Acesso a mais espaço de vitrine, proteção contra vendedores piratas, controle sobre a página do produto. Para quem vende nesses canais, o registro deixou de ser um diferencial opcional e virou um requisito para crescer com segurança. Esse incentivo prático, ligado diretamente à receita do vendedor, é um dos motores mais poderosos do crescimento recente.
5. A consciência do risco cresceu nas redes
Histórias de empreendedores que perderam o nome da empresa — ou precisaram pagar fortunas para recuperá-lo — viralizaram nos últimos anos. Grupos de empreendedores no WhatsApp, podcasts de negócios, perfis de advogados no Instagram: o tema da proteção de marca saiu do ambiente jurídico e chegou ao empreendedor comum. Quando a dor de quem não protegeu se torna visível, os outros correm para evitar o mesmo erro. Essa educação informal de mercado está convertendo intenção em pedido no INPI em uma velocidade que os números de 2025 deixam evidente.
Antes e depois: como o Brasil mudou
Dois períodos — crescimento acelerado
Fonte: INPI (Boletim Estatístico) / WIPO IP Statistics. Média anual: 2015–2018 vs 2021–2024.
Para entender a dimensão da mudança, basta comparar dois blocos de quatro anos. Entre 2015 e 2018, o Brasil registrou em média cerca de 129.405 novos pedidos de marca por ano (INPI). Entre 2021 e 2024, essa média saltou para cerca de 178.771 pedidos anuais — um crescimento de +38% entre os dois períodos.
Em termos práticos, isso significa que o mercado de marcas no Brasil cresceu estruturalmente, sustentado pela digitalização dos negócios, pelo avanço do MEI digital e pela maior consciência de propriedade intelectual. E o ritmo não está desacelerando — 2024 superou 2023, que já era recorde.
Outro dado que chama a atenção: mesmo o menor volume do segundo bloco (2021, com 165.089 pedidos) superaria qualquer ano do primeiro bloco. O piso do mercado atual está acima do teto de dez anos atrás.
Essa comparação tem uma implicação direta para quem está pensando em registrar uma marca: o ambiente de hoje é mais competitivo do que era quando os empreendedores que serviram de referência para você começaram. O que funcionava como estratégia de "esperar para ver" em 2015 é um risco crescente em 2025.
O que esperar de 2026
Com base na trajetória de crescimento dos dados do INPI e da WIPO — crescimento médio de +4,1% ao ano entre 2021 e 2024 — a projeção para 2025 aponta para um volume próximo de 190 a 195 mil novos pedidos. Se confirmado, seria mais um recorde consecutivo.
É uma projeção com margem de erro, naturalmente. Eventos econômicos imprevisíveis sempre podem alterar o ritmo. Mas o que a tendência de dez anos do INPI indica é que não há sinal de desaceleração estrutural — pelo contrário, o crescimento do e-commerce (R$ 185 bilhões em 2023, ABCOMM) e a expansão contínua dos MEIs digitais (Sebrae, 2024) seguem pressionando para cima.
Para quem está no mercado, o número mais importante não é a projeção exata. É a tendência: ano após ano, o pool de marcas depositadas no INPI cresce, e com ele cresce a chance de que o nome que você quer usar já pertença a outra empresa.
O que isso muda para o seu negócio
Depósitos acumulados no INPI — 2015 a 2024
Fonte: INPI (Boletim Estatístico) / WIPO IP Statistics. Novos depósitos acumulados de 2015 a 2024: ~1,52 milhão.
O gráfico acumulado conta a história mais importante deste artigo. Em 2015, o primeiro ano desta série, foram depositados 115 mil novos pedidos. Ao longo dos dez anos seguintes, esse acumulado chegou a cerca de 1,52 milhão de novos depósitos (2015–2024). Cada novo pedido entra em uma fila cada vez mais densa, disputando espaço com uma base que cresce a cada semana.
O que isso significa na prática? Mais colisões. Mais chances de que o nome que você escolheu para o seu negócio já tenha sido depositado por outra empresa. E, portanto, mais risco de que, ao tentar registrar sua marca, você descubra que o caminho está bloqueado — ou que outra empresa venha até você no futuro exigindo que você pare de usar o nome que construiu.
Com cerca de 515 novos pedidos chegando ao INPI por dia útil (estimativa 2024), cada mês de espera é um mês em que outra empresa pode chegar antes. O Sebrae estima que apenas 8% das PMEs brasileiras têm marca registrada — o que significa que a corrida para proteger o nome ainda está no início para a grande maioria dos negócios.
O registro de marca sempre foi importante. Com a tendência de crescimento dos dados do INPI e da WIPO, ele se tornou urgente. A boa notícia é que a verificação é gratuita e leva menos de 1 minuto. O primeiro passo é descobrir se o nome ainda está disponível — e esse passo você pode dar agora.