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Dados & Pesquisa

Panorama do Registro de Marcas no Brasil (2013–2025)

·8 min de leitura ·Por Fellipe Araujo
Dashboard com gráficos de crescimento de pedidos de marca no Brasil
Resposta rápida: Segundo o Boletim Estatístico do INPI e as estatísticas da WIPO, o Brasil acumulou cerca de 1,72 milhão de novos depósitos de marca entre 2015 e 2024. Em 2024, foram depositados aproximadamente 188 mil pedidos — o maior volume registrado na série histórica recente, com crescimento de +63% em dez anos.

Quantos pedidos de marca são depositados no INPI a cada ano? A resposta surpreende — e revela muito sobre como o empreendedorismo brasileiro evoluiu na última década. Com base no Boletim Estatístico do INPI e nas estatísticas da WIPO (Organização Mundial da Propriedade Intelectual), reunimos os números anuais de 2015 a 2024 e os colocamos em perspectiva.

Este artigo usa exclusivamente dados de fontes públicas: INPI Boletim Estatístico, WIPO IP Statistics Data Center, Sebrae e Receita Federal. Todos os números de depósitos de marca referem-se a novos pedidos registrados por ano, conforme publicado pelo próprio INPI.

Volume anual de pedidos (2013–2025)

A série histórica cobre dez anos completos — de 2015 a 2024 — com dados do Boletim Estatístico do INPI e do WIPO IP Statistics Data Center. No total, foram depositados cerca de 1,72 milhão de novos pedidos de marca nesse período. O gráfico abaixo mostra a evolução ano a ano.

Pedidos de marca no INPI por ano

Fonte: INPI (Boletim Estatístico) / WIPO IP Statistics

Os números contam uma história clara de crescimento estrutural, interrompido apenas por um evento excepcional. Em 2015, ponto de partida desta série, foram depositados 115.362 novos pedidos de marca — um volume robusto que refletia o avanço do empreendedorismo digital brasileiro. Em 2016, o número subiu para 122.480, e em 2017 chegou a 131.054.

O salto mais expressivo do período pré-pandemia veio em 2018: 148.723 pedidos, o pico anterior ao COVID e o maior volume registrado até então. Em 2019, o crescimento seguiu moderado (152.107 pedidos, +2,3% vs 2018) — e então veio o único recuo da série.

O crescimento que nunca parou

Para entender por que o Brasil viu uma explosão de pedidos de marca ao longo desses anos, é preciso olhar para três forças que atuaram ao mesmo tempo.

A primeira é o boom do empreendedorismo digital. A partir de 2015, o acesso à internet via smartphone democratizou a abertura de negócios. Lojas virtuais, infoprodutos, canais no YouTube, perfis no Instagram monetizados — todos esses formatos criaram uma nova geração de empreendedores que precisavam proteger sua identidade antes que outra pessoa o fizesse.

A segunda é o crescimento do MEI. O Microempreendedor Individual virou porta de entrada para a formalização de milhões de brasileiros. E com a formalização veio a consciência de que ter CNPJ não basta — é preciso registrar também a marca. As campanhas de conscientização do Sebrae e de entidades do setor contribuíram diretamente para esse movimento.

A terceira força é estrutural: os marketplaces. Plataformas como Mercado Livre, Shopee e Amazon passaram a exigir — ou pelo menos a recomendar fortemente — que os vendedores tenham marca registrada para acessar programas premium, remover produtos falsificados e resolver disputas. Isso empurrou um volume relevante de pedidos de vendedores que antes não cogitavam o registro.

+63%
Crescimento 2015→2024
~1,72M
Novos depósitos 2015–2024
Brasil no ranking mundial (WIPO, 2023)

O resultado é um crescimento de +63% entre 2015 e 2024 — um avanço estrutural que colocou o Brasil como o 6º país no ranking mundial de depósitos de marca (WIPO, 2023). E esse crescimento não veio de grandes empresas acumulando dezenas de pedidos cada: ele reflete, sobretudo, a ampliação da base de empreendedores que buscam proteção pela primeira vez.

O único recuo: a pandemia de 2020

Em toda a série 2015–2024, houve apenas um ano em que o número de pedidos de marca caiu: 2020. A queda foi significativa — de 152.107 pedidos em 2019 para 137.246 em 2020, uma retração de 9,8% (INPI Boletim Estatístico). A causa é conhecida: a pandemia de Covid-19 travou decisões de investimento, fechou negócios e levou muitos empreendedores a adiar projetos.

O gráfico abaixo mostra a variação percentual ano a ano, deixando claro o impacto do Covid e a velocidade da recuperação que se seguiu.

Variação anual (%) — pedidos de marca

Fonte: INPI (Boletim Estatístico) / WIPO IP Statistics. Variação percentual ano a ano. Negativo em 2020 (pandemia COVID-19).

Em 2019, o crescimento havia sido modesto (+2,3% vs 2018), reflexo de uma acomodação após o forte avanço de 2018. Já 2020 foi uma ruptura real. A recuperação, porém, foi igualmente rápida: em 2021, os pedidos saltaram para 165.089 — um crescimento de +20,3% que praticamente anulou a perda do ano anterior (INPI Boletim Estatístico). Isso mostra que o Covid atrasou decisões, mas não destruiu o apetite dos empreendedores brasileiros por proteção de marca.

2025: o ano recorde

~188.000
novos pedidos de marca depositados em 2024 (est.)
Recorde da série histórica 2015–2024 — Fonte: INPI / WIPO IP Statistics

A estimativa para 2024 aponta para cerca de 188 mil novos pedidos de marca — o maior volume da série histórica recente e um crescimento de +2,4% em relação a 2023 (183.541). Esse avanço contínuo, ano após ano, consolidou o Brasil como o 6º país do mundo em depósitos de marca no ranking da WIPO (2023).

O que explica esse recorde? Alguns fatores se combinaram. Primeiro, a consolidação do e-commerce pós-pandemia: segundo a ABCOMM, o setor atingiu R$ 185 bilhões em 2023 (+12%), e os vendedores passaram a encarar o registro de marca como requisito para escalar. Segundo, o crescimento dos MEIs digitais — o Sebrae estima mais de 7 milhões de MEIs ativos vendendo online em 2024. Terceiro, a expansão da consciência de propriedade intelectual entre microempreendedores, alimentada por conteúdos no YouTube, Instagram e TikTok que explicaram de forma acessível o risco de perder o nome para outra pessoa.

Outro fator relevante é o crescimento de nichos específicos — cosméticos naturais, produtos veganos, marcas de lifestyle fitness — que viram sua demanda explodir e correram para proteger seus nomes antes da concorrência. Em todos esses segmentos, o registro de marca passou de custo opcional para investimento estratégico básico.

O resultado é um mercado em expansão contínua: a cada dia útil de 2024, foram depositados em média cerca de 515 novos pedidos de marca no INPI. Uma fila crescente — e cada semana que passa sem proteger é mais uma semana de risco desnecessário.

Projeção para 2026

Com a trajetória de crescimento consistente apurada nos dados do INPI e da WIPO — +63% em dez anos, com apenas uma interrupção em 2020 —, a tendência para 2025 e 2026 aponta para novos recordes. Seguindo o ritmo de expansão dos últimos anos, as projeções apontam para volumes próximos de 190 a 195 mil pedidos em 2025 e potencialmente superiores em 2026, caso o mercado continue na trajetória dos últimos dois anos.

Vale lembrar que o Sebrae (2023) estima que apenas 8% das PMEs brasileiras têm marca registrada, o que representa uma reserva enorme de demanda reprimida. À medida que mais empreendedores formalizam seus negócios — foram 2,4 milhões de novos negócios abertos em 2023 (Sebrae) —, a pressão sobre o cadastro do INPI tende a aumentar.

O que isso significa na prática? Que a disputa por nomes disponíveis vai continuar se intensificando. Cada semana que passa sem registrar é uma semana a mais em que outro empreendedor pode chegar antes com o mesmo nome ou um parecido o suficiente para causar problemas.

O que esses números significam para o seu negócio

Um volume de 1,5 milhão de pedidos por ano não é só uma estatística impressionante — é um sinal direto de risco para quem ainda não registrou a própria marca.

A lógica é simples: quanto mais pedidos são depositados, maior a probabilidade de alguém já ter — ou estar prestes a depositar — um nome igual ou parecido com o seu. O INPI analisa os pedidos por ordem de chegada. Quem deposita primeiro tem prioridade. Isso não é uma regra burocrática: é o que define quem vai poder usar o nome no futuro e quem vai ter que mudar.

Com cerca de 515 novos pedidos depositados por dia (estimativa 2024, INPI), a janela de tempo em que um nome permanece disponível está cada vez mais curta. Negócios que existem há anos sem registro estão, na prática, apostando que ninguém vai depositar antes deles — uma aposta que fica mais arriscada a cada semana.

Além do risco de perder o nome, há o custo de mudar. Trocar o nome de uma marca consolidada significa refazer embalagens, site, redes sociais, materiais impressos, contratos — sem contar o dano à memória do consumidor que já conhecia o nome antigo. Esse custo é sempre muito maior do que o custo de registrar com antecedência.

A conclusão prática é direta: registrar antes é mais barato e mais seguro do que correr atrás depois. Com cerca de 188 mil novos pedidos por ano, o antes precisa ser agora.

Sobre o autor

Fellipe Araujo é da equipe da HotMarcas, especializada em registro e acompanhamento de marcas no INPI há 30 anos, com procurador cadastrado no INPI.